sábado, 7 de maio de 2016

Duas formas de trânsito entre  os sistemas: o econômico e o tópico


Freud, no artigo O recalque (sobre o qual nos debruçamos neste ano de nossa pesquisa) até o momento (pág. 172 da Standard Edition, 1974) nos coloca duas formas de passagem que pode existir para que o representante supere o recalque e chegue ao Consciente. Estas duas formas já foram, de certa maneira, discutidas em outras postagens, mas julgamos ser de grande importância salientarmos este fato novamente, pois são elas de fundamental importância para a metapsicologia freudiana.
Aos que se interessarem, vale a pena conferir a postagem anterior no link abaixo:


Neste sentido, a representação, para ter acesso ao Cs., deve se modificar, ficando longe (enquanto significação) de sua forma original – o recalque original. Esta representação se liga à outras representações a fim de que se transforme, ficando muito diferente daquela do recalque original. Dissemos na postagem anterior que esta proximidade de significação tornaria impossível o acesso de tal representação ao Consciente pois de causar muito desprazer. Finalmente muito modificada a representação consegue ter acesso ao Consciente, onde lá, por sua vez seria suportável. Esta forma de acesso ao Consciente faz parte das explicações tópicas de Freud.
Uma outra forma de passagem ao Consciente é a forma econômica. Vejamos:

Ocorre aqui um delicado equilíbrio, cujo jogo não nos é revelado; no entanto, sua modalidade de atuação nos permite inferir que se trata de pôr um paradeiro à catexia [investimento] do inconsciente quando esta alcança certa intensidade - intensidade além da qual o inconsciente venceria as resistências, chegando à satisfação. (Freud, 1915, p. 173)

Freud nos coloca que uma das formas que o representante tem de acessar o Consciente é alcançando um alto investimento e assim superar as resistências. A dinâmica do recalcamento permite que a representação transite de um sistema para outro, buscando ter acesso ao Consciente. Porém, ela tem que ser modificada para não causar desprazer, ou então, obtendo grande energia, ultrapassa a barreira do recalque, mas pode causar grande desprazer.

Neste momento é interessante observar que, desta forma, se um representante teve que se alterar tanto assim para passar pela barreira do recalque, essa representação que seria experimentado pelo Cs. como desprazerosa, a partir desta alteração do representante pode ser experimentada como prazerosa no Cs.. Assim, o que causa prazer em um sistema pode causar desprazer em outro, dependendo de quanto este representante se altere ou de quanta energia ele possui para ultrapassar a barreira do recalque.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O tempo no inconsciente

O Inconsciente enquanto instância psíquica, tem como um dos grandes diferenciais das demais instâncias o fator atemporal, do alemão zeitlos, que diz de uma certa temporalidade peculiar existente no Inconsciente, na qual o passar do tempo não faz diferença. Levantamos esta discussão em decorrência de havermos encontrado, através da nossa pesquisa, a presença da palavra tempo em dois momentos na página 173, no texto d’O Recalque, no volume XIV da Edição Standard Brasileira das obras completas de Sigmund Freud.
A primeira aparição do emprego da palavra tempo se dá na seguinte frase: “Ao executarmos a técnica da psicanálise, continuamos exigindo que o paciente produza de tal forma, derivados do reprimido, que, em consequência de sua distância no tempo, ou de sua distorção, eles possam passar pela censura do consciente.”(Freud, 1915/1974, p.173, grifo nosso). E num segundo momento temos também o trecho:“Não podemos formular uma regra geral sobre o grau de distorção e de distância no tempo necessário para a eliminação da resistência por parte do consciente” (Freud, 1915/1974, p.173, grifo nosso). No texto alemão, nas duas partes citadas acima Freud se utiliza das palavras Entfernung e Entstellung, que respectivamente podemos traduzir por distância e deformação.
As duas frases citadas dizem de um caráter temporal que eliminaria a resistência, possibilitando assim a passagem dos chamados “derivados do reprimido [recalcado]” para o Consciente, quando na verdade, temos de pensar a questão por um viés de significação. Os conteúdos que “orbitarem” mais longe (enquanto significação) do ponto de fixação do recalque original, tem mais chances de se ligarem a outras representações e acederem ao Consciente, independentemente do tempo em que foram recalcados.
A referência que temos da passagem do tempo não faz com que o recalque perca suas forças. Um fato que aconteceu na infância pode provocar efeitos quando adulto. Pois o Inconsciente não funciona com a mesma noção de tempo que o Consciente; a lógica é outra. O Inconsciente não reconhece a passagem do tempo.
Para melhor clarificarmos esta questão sobre os dois trechos ao qual a Standard Edition inseriu sem sentido a palavra tempo nestes trechos, vejamos estes dois mesmos trechos na edição da Companhia das Letras, volume XII, página 88: “No exercício da técnica psicanalítica, exortamos continuamente o paciente a produzir tais derivados do reprimido, que devido a sua distância ou deformação podem passar pela censura do consciente.” E o outro trecho: “De modo geral não podemos dizer até onde tem que ir o distanciamento e deformação do reprimido para que a resistência do consciente seja removida”. Também na tradução de Luiz Hanns, página 180, temos: “durante a prática da técnica psicanalítica, solicitamos continuamente ao paciente que produza as representações derivadas do recalcado que possam, em decorrência de sua distania ou de sua deformação, passar livremente pela censura do inconsciente”; e também “Em geral, não é possível determinar até onde o grau de deformação e o afastamento do recalcadoprecisam chegar para que a resistência do consciente seja suspensa”.
Cabe lembrar também que em nenhum dos dois trechos citados, no original alemão, a palavra Zeit (tempo) é utilizada.
Ainda mais. No artigo sobre o Inconsciente, escrito pouco tempo depois, Freud nos fala que: “Os processos do sistema Ics são atemporais, isto é, não são ordenados temporalmente, não são alterados pela passagem do tempo, não têm relação nenhuma com o tempo.” (Freud, 1915, p. 93-94)
Sendo assim, não nos restam dúvidas de que Freud nestes dois trechos que discutimos diz de um caráter de significação (nem de espaço nem de tempo), ou seja, como é ilustrado na figura abaixo, quanto mais distante enquanto significação, ou quanto mais distorcido em relação ao recalque original, menos resistência atua sobre os derivados do recalque, e desta forma mais fácil seu acesso ao Consciente. É importante salientar que usamos a palavra distante no sentido de que a representação foi se transformando, ficando longe de sua forma original, o recalque original, para que assim possa superar a barreira do recalque e seguir para o Consciente.














domingo, 17 de abril de 2016

Urverdrängung – O Recalque Original

Continuando com a leitura do artigo sobre O recalque (1915) encontramos um novo termo freudiano para discutirmos a tradução. Na versão brasileira da Standard Edition temos a expressão repressão primeva, que corresponderia ao termo alemão Urverdrängung, para o qual propomos a tradução por recalque original, no mesmo rumo de nossas propostas anteriores de tradução. O prefixo Ur acrescentado ao substantivo Verdrängung nos traz uma nova concepção: algo ancestral, primevo, original; sempre lembrando que esse tempo ancestral não é cronológico, apenas lógico (o mesmo prefixo é utilizado em palavras como Urmensch transformando a palavra mensch – homem, em homem primitivo).
Assim, Freud propõe a discussão deste recalque original (Urverdrängung) que, segundo ele, é a primeira etapa do recalque. Mas como isso acontece?
Este Recalque Original é uma das forças que impedem que o representante psíquico recalcado surja no Consciente. Então inicialmente tem-se um britamento da pulsão, da qual não podemos falar, pois nos faltariam palavras. Esta pulsão se liga a uma representação(Vorstellung), que por sua proximidade com a pulsão, não pode ser diretamente enviada ao Consciente, pois sofreria necessariamente um recalque. Desta forma, cabe enviar algo em seu lugar, um representante (Repräsentanz)dessa representação.Percebam que aqui usamos – e Freud também distingue assim- representação e representante, para fazermos uma importante diferenciação: a representação é aquela que se liga à pulsão (uma ideia, um conceito) e o representante é aquele que vai no lugar da representação (como o advogado representa seu cliente em uma audiência). O representante é então um substituto da representação.
Isto posto, teremos que este representante também é repelido ao tentar passagem para o Consciente, e com seu retorno se estabelece um ponto de fixação no Inconsciente no qual o representante permanece ali se ligando(colando, ficando junto) àquela pulsão que brotava.
Este Recalque Original, a partir da fixação que foi criada, ainda atua como uma força que atrai outros elementos (como um campo gravitacional), que podem se ligar a essa fixação, fazendo com que tudo o que se ligar a esta fixação e forçar passagem para o Consciente seja igualmente recalcado, ou seja, impedido de chegar ao Consciente. Estes demais conteúdos recalcados orbitarão essa fixação causada pela força do recalque original.
Qual a função do recalque original? Podemos dizer que o que foi fixado, ou seja, inscrito no inconsciente possibilita que aconteça o recalque secundário. As marcas do recalque original fortalecem o recalque secundário, possibilitando as aproximações gradativas a este conteúdo, de maneira a avançar nestes conteúdos inconscientes mais distantes do recalque original. Sendo assim, através da associação livre, chega-se o mais perto possível deste conteúdo originalmente recalcado e marcado sob o signo de uma forte fixação.



sexta-feira, 8 de abril de 2016

Os processos do recalque e a dinâmica da força pulsional

Para bem começarmos nossas discussões acerca do Recalque, faremos algumas considerações sobre este termo. Segundo o editor inglês da Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, Freud utilizou pela primeira vez o termo Recalque (Verdrängung) em “Comunicação Preliminar” volume II, pág. 51 da edição supracitada, na época em que Freud ainda trabalhava em conjunto com Breuer.

Ainda segundo o editor, o termo Verdrängung foi usado no princípio do século XIX pelo psicólogo Herbart, e provavelmente chegou ao conhecimento de Freud por que Freud admirava Meynert, e este por sua vez estudava Herbart.

O “Dicionário comentado do alemão de Freud” de Luiz Hanns (1996), conceitualiza mais sobre o termo Verdrängung:

Verdrängung é habitualmente traduzido por “recalque” ou “repressão”. O verbo verdrängen genericamente significa “empurrar para o lado”, “desalojar”; (...). Conotativamente, verdrängen remete a uma sensação de “sufoco”, “incômodo”, que leva o sujeito a desalojar o material que o incomoda. Contudo, apesar de ter sido afastado, tal material permanece junto ao sujeito, pressionando pelo retorno e exigindo a mobilização de esforço para mantê-lo longe. Tais conotações coincidem, grosso modo, com aspectos do emprego do termo no contexto psicanalítico. (Hanns, 1996, pág. 355, grifos do autor).

Com isso, feito uma pequena contextualização, perceberemos que ao longo de nossas discussões iremos perpassar as poucas e tão ricas 19 páginas do desenvolvimento da psicanálise de Sigmund Freud acerca do recalque.

Freud inicia o texto sobre o recalque falando dos caminhos que a moção pulsional - que nada mais é do que uma pulsão que está no seu início - pode tomar, e que podem haver resistências que fazem com que esta pulsão inicial possa ser impedida de continuar seu caminho. Em uma ocasião que falaremos mais adiante, tal pulsão inicial de que falamos entra em estado de recalque, onde é impedida de prosseguir seu destino.

Para separar melhor o recalque de outros mecanismos de defesa, Freud coloca que quando um estímulo desagradável é exterior ao “eu”, o mecanismo de fuga é a condenação, ou censura - que se encontra entre o Pcs e o Cs - que tende a funcionar de forma um pouco mais fácil do que a situação seguinte que vamos elucidar, exatamente porque o estímulo é externo ao “eu”. Já nesta segunda situação, o estímulo é interno ao “eu” e aí nas palavras de Freud: “a fuga não tem valia, pois o eu não pode escapar de si próprio.” (Freud, 1915, pág. 169). Aqui então é onde acontece o recalque – entre o Ics e o Pcs -, anterior à censura (no post “Três barreiras à representação” nos detivemos com mais detalhes sobre esta Censura e sua localidade topográfica).

Antes da divisão do aparelho psíquico (inconsciente/consciente) a pulsão busca escoamento através de caminhos como a reversão a seu oposto, retorno em direção ao próprio eu. No texto Os instintos e suas vicissitudes (A pulsão e seus destinos), fica evidente que antes da divisão do aparelho psíquico o recalque não acontece. Lembrando que a pulsão é composta por um afeto e uma representação, onde somente a representação é recalcada. Se a pulsão provocar mais desprazer que prazer o recalque entra em cena para evitar o desprazer. A pulsão pode produzir prazer no inconsciente e desprazer no consciente, ou vice-e-versa. Se a potência ou força do desprazer for maior no consciente que o prazer o recalque não pode ocorrer. Agora, se o prazer for maior no consciente, o recalque é realizado com sucesso.

terça-feira, 29 de março de 2016

Recomeçando os trabalhos...

Depois de um longo hiato de publicações, voltamos neste ano de 2016 a pleno vapor, postando como de costume as discussões que realizamos nos nossos encontros do grupo de pesquisa “Os conceitos fundamentais da psicanálise: um estudo detalhado dos conceitos freudianos” que acontece na Universidade do Estado de Minas Gerais, unidade de Divinópolis.

Ano passado discutimos o Texto O Inconsciente, artigo escrito em 1915. Neste ano abordaremos e discutiremos o artigo O recalque também de 1915, encontrado no mesmo volume do artigo O inconsciente, o volume XIV da Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud.
Continuaremos com o mesmo formato das discussões e consequentemente dos textos aqui publicados, sempre nos atentando ir para além do que está escrito nas páginas dos textos de Freud, observando as questões que se referem aos erros de tradução que foram tão comuns na edição supracitada do artigo que discutimos anteriormente.


Para tal, continuaremos nosso trabalho de leitura balizando-nos nas seguintes versões do texto de Freud: duas edições diferentes do volume XIV da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – 1987 e 1996, ambas da Imago; a tradução de Luiz Hanns incluída no volume 1 das Obras psicológicas de Sigmund Freud, também da Imago; o volume 12 da edição da Companhia das Letras: Sigmund Freud – Obras completas; o volume I da versão traduzida direta do alemão ao espanhol de Luis López Ballesteros y de Torres, intitulada Obras Completas, da editora Biblioteca Nueva; além do volume X da versão alemã dos Gesammelte Werke de Freud, publicado pela Imago.



Sendo assim, agora discutindo o Recalque, desejamos a todos boas leituras! 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Palavras e coisas


O último tópico do artigo O Inconsciente antes dos apêndices, o tópico VII, começa diferenciando as neuroses de transferência (histeria de medo, histeria de conversão e neurose obsessiva) das psiconeuroses de narcísicas (psicoses) no que se refere à relação entre o Eu e objeto. Visto que, segundo Freud, já avançamos muito até este ponto com os estudos das neuroses de transferência e da vida onírica, precisamos ainda, para compreendermos melhor o Inconsciente, analisar mais atentamente agora as psiconeuroses narcísicas, para entendermos suas peculiaridades e lançar novas luzes ao conhecimento sobre o Inconsciente.

No que se refere à antítese entre o Eu e o objeto, Freud vem nos dizer que esta não acontece nas neuroses de transferência. Como já vimos em outros momentos, quando há a expulsão do objeto inicia-se a neurose, ficamos apenas com uma representação deste objeto no Inconsciente. Apenas com novos investimentos esta representação pode surgir no Consciente, depois de passar pelo processo primário. Dessa forma o Eu pode voltar a investir sua libido no objeto, e assim, elimina-se a antítese.

Entretanto, nas psicoses, a libido que foi retirada do objeto no ato do recalque (lembremos que até esse momento da teorização Freud contava apenas com um mecanismo – o Recalque) não procura posteriormente um novo objeto, mas se volta para o Eu, e é aqui que se encontra tal antítese conjecturada por Freud. Sendo assim, estabelece-se uma condição narcísica, investindo-se libidinalmente apenas no Eu, e é por isso que Freud vai dizer que não é viável o tratamento psicanalítico de psicóticos, pois eles são incapazes de estabelecer transferência (lembremos também que esta possibilidade foi revista com sucesso por Lacan da década de 1950). Além disso há a recusa do mundo externo, dentre outras características. É por isso que Freud começa a estudar as psicoses, pois “muito do que é expresso na esquizofrenia como sendo consciente, nas neuroses de transferência só pode revelar sua presença no Ics. através da psicanálise.” (Freud, 1915/1974, p.225). Estaria aqui uma primeira forma do jargão psicanalítico de que na psicose o inconsciente está a céu aberto?

Outro importante ponto neste texto é que Freud começa a dar extrema importância ao que ele chama de modificação na fala dos psicóticos, dizendo que ela se torna afetada e preciosa. Logo Freud vem explicitar esses fatos citando outros autores e casos, ficando claro que o pai da psicanálise está trabalhando com a linguagem, fato muito bem ressaltado por Jaques Lacan, que fez grande uso da linguística estrutural em sua primeira clínica, incluindo trabalhos de vulto sobre a psicose.

A partir de um dos casos expostos, Freud conclui que nas psicoses há uma divergência no que diz respeito à palavra e à coisa (palavra enquanto discurso verbal e coisa enquanto atributo Ics.) Nesse sentido, para o psicótico não há uma representação da palavra (Wortvorstellung), há apenas a representação da coisa (Sachvorstellung).
Retomando raciocínios anteriores, Freud afirma que não existem “registros diferentes do mesmo conteúdo em diferentes localidades, nem tampouco diferentes estados funcionais de investimentos na mesma localidade” Então se uma representação Ics. não é investida permanece em estado de coisa, e se é investida ganha além do estado de coisa, o de palavra e só assim vai ao Cs. Temos então que no Ics. só há apresentação de coisa, enquanto no Pcs-Cs há a representação de coisa mais a representação de palavra.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Aviso aos navegantes II e III


 Como frequentemente fazemos, continuamos a encontrar erros (grosseiros diga-se de passagem) na Edição da Standard Brasileira de Freud e mais uma vez apontaremos mais alguns que, se passarem desapercebidos, podem causar estranheza e desentendimento sobre o que Freud está se referindo.


No tópico VI, página 221 (edição brasileira de 1974) temos o seguinte trecho: “Quanto mais procuramos encontrar nosso caminho para uma concepção metapsicológica da vida mental, mais devemos aprender a nos emancipar da importância do sistema de ‘ser consciente’.”
O trecho em itálico contém um erro, pois, na verdade Freud fala “In dem Masse, als wir uns zu einer metapsychologischen Betrachtung des seelenlebens durchringen wollen, mussen wir lernen, uns von der Bedeutung der Symptoms ‘Bewusstheit‘  zu emanzipieren.” Mesmo sem saber a língua alemã fica claro que symptoms não é sistema, mas sim sintoma.

Outro ponto em que encontramos um erro se encontra já no tópico VII, na página 230, vejamos:

Agora parece que sabemos de imediato qual a diferença entre uma apresentação consciente e uma inconsciente. As duas são, como supúnhamos, registros diferentes do mesmo conteúdo em diferentes localidades psíquicas, nem tampouco diferentes estados funcionais de investimentos na mesma localidade; mas a apresentação consciente abrange a representação da coisa mais a representação da palavra que pertence a ela, ao passo que a representação inconsciente é a representação da coisa apenas. (Freud, 1915/1974, p.229-230)

Atentemos para as expressões em itálico. A forma como está escrito acima, além de trazer a ideia errônea de que existe diferentes registros da representação em lugares distintos no aparelho psíquico, traz uma contradição com o segundo grifo. Na verdade, no primeiro grifo, a forma correta é “As duas não são (...)” e assim refaz-se o sentido correto sobre um único registro da representação.

Para melhor evidenciarmos vejamos o original alemão, com as respectivas expressões em itálico: “Die beiden sind nicht, wie wir gemeint haben, verschiedene Niederschriften desselben Inhaltes an verschiedenen psychischen Orten, auch nicht verschiedene funktionelle Besetzungszustände an demselben Orte, sondern die bewußte Vorstellung umfaßt die Sachvorstellung plus der zugehörigen Wortvorstellung, die unbewußte ist die Sachvorstellung allein.”
A expressão “sind nicht” quer dizer “não são”; e “auch nicht” quer dizer “também não”. Cabe lembrar que edições brasileiras posteriores a 1996 trazem esse segundo erro já corrigido.


Sendo assim observamos mais dois erros na Edição Standard que sem dúvida, se não forem observadas e evidenciadas, podem causar erros e desentendimentos na compreensão dos textos de Sigmund Freud.