quinta-feira, 2 de julho de 2015

Os sentimentos inconscientes – repressão e recalque


A sessão III do artigo O Inconsciente (1914) que estamos discutindo, tem como título na Standard Edition de 1974 “Emoções Inconscientes”, na edição de 2010 da Companhia das letras está como “Sentimentos Inconscientes”, da mesma forma na edição alemã Gesammelte Werke, onde está escrito Unbewußte Gefühle (Sentimentos Inconscientes).

Neste texto Freud vem nos dizer que a oposição entre inconsciente e consciente não se aplica à pulsão, e que esta não pode ser tornar objeto da consciência, mas apenas a sua representação. Dessa forma se a pulsão não se liga a uma representação nada podemos saber dela.
Segundo Freud estamos acostumados a entender que nossas emoções, sentimentos e afetos são da ordem da consciência, e, portanto, temos pleno conhecimento sobre eles. Entretanto ele vem nos alertar que na prática psicanalítica podemos falamos em amor, ódio e ira inconscientes. Isso se deve a que muitas das vezes impulsos afetivos ou emocionais sejam sentidos, mas não identificados corretamente, devido ao fato de que esse afeto carece de uma representação, que por sua vez fora recalcada.
Quando falamos de afetos inconscientes e emoções inconscientes, nos referimos aos caminhos tomados, por causa do recalque que essa representação sofreu, através do impulso pulsional. Freud vem nos falar de três possíveis caminhos, e deste modo, destinos que o afeto pode tomar: No primeiro deles “o afeto permanece, no todo ou em parte, como é”; no segundo caminho “é transformado numa quota de afeto qualitativamente diferente, sobretudo em medo (Angst)”; e o terceiro caminho que Freud nos mostra o afeto “é reprimido (Unterdrückt), isto é, impedido de se desenvolver”.

Mais uma vez nos deparamos com questões relativas à tradução de nossas edições brasileiras das obras de Freud, mais especificamente a Standard Edition, tornando-se impossível fazermos considerações sobre o que Freud quer nos dizer sem levarmos em conta estas questões.
Aqui nos deparamos com esses três destinos do afeto, onde no primeiro o afeto continua em seu estado normal, sem alteração, ou pelo menos em parte como é. No segundo caminho, segundo a Standard Edition o afeto pode se transformar em ansiedade. Na edição alemã encontramos “oder er erfährt eine Verwandlung in einen qualitativ anderen Affektbetrag, vor allem in Angst”. A palavra Angst que apressadamente traduziríamos por angústia (ainda que essa tradução também seja correta, sobretudo com as traduções de pessoas ligadas à escola lacaniana), na verdade tem como sua primeira tradução medo. Assim Freud nos diz que o afeto em um de seus caminhos pode se transformar em medo (ou angústia).
No terceiro caminho possível a ser sofrido pelo afeto, como já expusemos, o afeto pode ser reprimido, e onde mais uma vez a Standard Edition traz confusão. Em quase todas as vezes em que surge o termo repressão, em todos os volumes da Standard Edition, somos obrigados a trocar esta palavra por recalque. É que, via de regra, quando temos o surgimento do termo repressão na Standard Edition, Freud utilizou o termo Verdrängung, entendendo esse processo como o movimento que a representação faz do sistema Cs. em direção ao Ics. desligando-se do afeto. Neste trecho especificamente não, pois aqui Freud usa o termo Unterdrückt referindo-se aí sim à repressão. Vejamos no texto de Freud (aqui na tradução de Luiz Hanns): “Sabemos que a repressão do desencadeamento do afeto é o verdadeiro objetivo do recalque [...]”; ou em alemão: “Wir wissen auch, daß die Unterdrückung der Affektentwicklung das eigentliche Ziel der Verdrängung ist [...]”.
Desta forma a repressão diz de um esforço da consciência para reprimir, sufocar o afeto, e esse é o objetivo da repressão: impedir, inibir o desenvolvimento dos afetos. Assim, inibindo um impulso pulsional este afeto não se manifesta. Nesse sentido, para exemplificar, podemos pensar no caso de Freud (Elisabeth von R.) em que a paciente, na ocasião da proximidade da morte de sua irmã, tem o pensamento de que será bom ter seu cunhado agora só para ela. Nesse momento ela reprime essa ideia de forma consciente, não acontecendo de essa ideia ser levada ao Inconsciente. Os sentimentos pelo cunhado eram inconscientes, mas a repressão do pensamento foi consciente.
Freud ainda nos fala também sobre o movimento que o impulso pulsional faz em relação a representação e ao afeto:

Com frequência, contudo, a moção pulsional tem de esperar até que encontre uma representação substitutiva no sistema Cs. O desenvolvimento do afeto pode então provir desse substituto consciente e a natureza desse substituto determina o caráter qualitativo do afeto. Afirmamos que no recalque ocorre uma ruptura entre o afeto e a representação à qual ele pertence, e que cada um deles então passa por destinos isolados. Descritivamente, isso é incontestável; na realidade, porém, o afeto, de modo geral, não se apresenta até que o irromper de uma nova apresentação no sistema Cs. tenha sido alcançado com êxito. (Freud [1915] 1974, p.205-206, como modificações nossas na tradução)


Temos por fim com Freud que o afeto não se desenvolve até que uma nova representação substitutiva chegue ao Cs. Liga-se assim o afeto à nova representação (esse é o caminho de formação dos sintomas). Assim podemos pensar que ao chegar ao sistema Cs. a representação recebe uma carga de investimento, ao passo que o afeto, a emoção, faz um movimento de descarga, percebido como sentimentos. 

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