terça-feira, 21 de julho de 2015

Os lugares do aparelho psíquico e os três tempos do recalque


Continuando nossos estudos sobre o texto O Inconsciente (1915), a sessão IV é nomeada como "Topografia e dinâmica da repressão" na edição Standard de 1969; "Tópica e dinâmica do recalque" na edição de Luiz Hanns. No alemão Freud usou o termo Topik traduzido por tópica, que quer dizer lugar, ou seja, o pai da psicanálise está discutindo ao longo deste texto sobre os lugares - Cs, Pcs e Ics - onde acontece o recalque e como se dá este "ir e vir" das representações.
Podemos ao longo deste texto eleger alguns pontos principais que são extremamente importantes para a teoria psicanalítica. Um deles é que Freud traz pela primeira vez com mais consistência a ideia do recalque acontecendo em três tempos. O primeiro que ele chama de recalque primevo ou primeiro; o segundo é o recalque propriamente dito, e o terceiro é aquele em que a representação recalcada no segundo momento retorna (o retorno do recalcado) – o sintoma, por exemplo; que é também quando Freud nos fala sobre a repetição.
Dando sequência, outro ponto que podemos eleger como de suma importância neste texto, é quando Freud, discutindo justamente o recalque e seus momentos questiona: que mecanismo mantém o recalque propriamente dito e assegura o estabelecimento e a continuação do recalque primeiro? Como resposta ele traz o conceito de contra-investimento.

Esse outro processo só pode ser considerado mediante a suposição de um contra-investimento, por meio da qual o sistema Pcs. se protege da pressão que sofre por parte da ideia inconsciente. [...] É isso que representa o permanente dispêndio [de energia] de um recalque primevo, garantindo, igualmente, a permanência desse recalque. O contra-investimento é o único mecanismo do recalque primevo; no caso do recalque propriamente dito (‘pressão posterior’) verifica-se, além disso, a retirada do investimento do Pcs. É bem possível que seja precisamente o investimento retirado da ideia o utilizado para o contra-investimento. (Freud, 1915, p. 208, grifos do autor)

É interessante notar o uso alemão do termo dem Nachdrängen, literalmente a pressão posterior, para se referir ao recalque (Verdrängung) propriamente dito, o secundário. Podemos notar o mesmo verbo (drängen – empurrar, forçar) na raiz das duas palavras. Entretanto no caso do recalque propriamente dito, secundário, o verbo é acrescido da preposição nach que sugere um depois, inseparavelmente ligado ao primeiro.
Assim Freud vem nos mostrar que o contra-investimento é a energia que o recalque usa para agir e o contra-investimento impede que as representações Ics. venham à consciência, mas, para que essas representações venham à consciência é necessário um investimento. Assim, de forma geral, quando uma representação está no Cs. e é recalcada houve uma retirada de investimento da representação neste sistema para lavá-la ao Ics.. Lá o contra-investimento age impedindo que esta representação retorne para o Cs., mas com um investimento sobre a representação, esta retorna ao Cs. 
Desta forma Freud nos diz que "Além do ponto de vista dinâmico e tópico adotamos o econômico" (Freud, 1915, p.208). Este ponto vista é econômico porque ele vem trabalhar com a energia libidinal (investimento / contra-investimento) e é ela que faz com que tais representações tomem os diversos caminhos entre os sistemas Ics., Pcs. e Cs.
Com isso Freud conclui que, com os pontos de vista dinâmico, tópico e econômico dos processos psíquicos, podemos nos referir à psicanálise como uma metapsicologia, pois trabalha com conceitos nunca antes estudados/pesquisados pela psicologia.

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